Tipografia III: Taxonomia das Fontes Tipográficas

Taxonomia das Fontes Tipográficas

Como pudemos ver anteriormente, a escolha da fonte tipográfica é de extrema importância para compor adequadamente uma composição, de modo que ela seja visualmente envolvente ao público.

Porém esse trabalho visual não é tão simples de ser realizado e, para que tenhamos uma atmosfera apropriada que intensifique a mensagem que desejamos passar, é necessário entender a estrutura dos tipos escolhidos e sua classificação.

Para compreender esses conceitos, indicamos que leia as matérias:

Dentro de um mesmo grupo, podemos encontrar variações de fontes que podem ser classificadas hierarquicamente em ordens taxonômicas, partindo de sua classificação tradicional, mais geral, para uma classificação mais específica de acordo com o seu enquadramento histórico e suas características em comum.

Taxonomia das Fontes Tipográficas

Fazendo alusão ao que acontece na biologia, a classe das fontes é classificada tradicionalmente em quatro grandes grupos de acordo com a principal característica estrutural que compartilham: as serifas. Por sua vez, cada um dos grupos que compõe uma ordem é subdividido, mais especificamente, em famílias de acordo com o período histórico em que nasceram e suas características secundárias.

Portanto, podemos dizer que o tipo BULMER pertence à classe das fontes tipofráficas de ordem das serifadas, da família das fontes transicionais.

Abaixo, destrinchamos cada uma das fontes tipográficas, partindo de sua classificação tradicional para o seu enquadramento histórico.

fontes serifadas

Humanistas


As fontes humanistas, também chamadas de venezianas, surgiram entre os séculos XV e XVI, nas regiões da Itália e França, e foram inspiradas nas caligrafias clássicas, de origem gótica medieval.  Essas fontes assemelham-se aos desenhos feitos pelos monges, captando o movimento da mão e da pena inclinada no papel, por isso o nome: humanistas.

Os tipos humanistas foram os primeiros tipos latinos e apresentam algumas características em comum:

1. Tem o eixo deslocado para a esquerda;
2. A altura X é relativamente mais baixa;
3. Apresenta contraste médio entre traços grossos e finos dos braços;
4. As serifas são triangulares ligadas às hastes por curvas.

fontes humanistas

Estas classes possuem as melhores proporções para aplicação como fonte de texto. A veiculação ostensiva destes desenhos de letras durante séculos consolidou a forma destes tipos como mais confortáveis para leitura e de melhor legibilidade.

Apesar de terem uma breve ascensão no início do séulo XX, esse tipo de fonte caiu em desuso por causa de sua cor relativamente escura e altura baixa. No entanto, as fontes humanistas merecem nossa atenção porque são delas que irão se originar as fontes modernas.

Transicionais


Como o próprio nome sugere, as fontes transicionais pertencem a um período de transição entre as tipografias humanistas e modernas. As fontes dessa família foram desenvolvidas a partir do alfabeto criado para Luis XIV, o Roman du Roi, desenhado sob rígidas regras matemáticas.

Paralelamente, a modernização e o advento de novas técnicas de produção dos tipos, começaram a distanciar progressivamente a caligrafia clássica medieval vigente. A partir daí, os caracteres começam a ter um desenho mais minimalista, onde perdem o movimento de inclinação da pena e passam a ter ângulos mais retos e um desenho mais consistente e linear.

fontes transicionais

Os tipos transicionais ainda são muito utilizados, como as nossas famigeradas Times New Roman e Georgia, as quais também vão possuir características em comum que ajudam a identifica-las:

1. Suas serifas são mais definidas, planas e retangulares;
2. Possuem traços mais retos e curvas mais consistentes;
3. As serifas são ligadas as hastes por curvas;
4. Seu eixo vertical é levemente inclinado;
5. Acentuado contraste entre as hastes.

Modernas


Seguindo a linha do tempo, as fontes modernas surgiram no século XVIII, substituindo as fontes transicionais. Nesse período houve a substituição das penas humanistas pelas penas metálicas, o que possibilitava ao calígrafo maior precisão nos desenhos dos tipos.

fontes modernas

Ainda na tendência da modernização, esse estilo de fonte passou a ser ainda mais rígida e matemática, possuindo uma configuração geométrica. Podemos caracterizar essas fontes de acordo com os seguintes elementos estruturais:

1. Contraste evidente entre os traços grossos e finos;
2. Seriifas retas, finas e paralelas ás hastes (chamadas serifas adruptas);
3. Possui o eixo vertical completamente centrado;
4. Seu nível de detalhamento permite o desenho de corpos menores.

Mecânicas


Oriundas do século XIX, as fontes mecânicas, também chamadas de egípcias, nasceram durante a Revolução Industrial com o propósito de serem utilizadas em cartazes e propagandas. Como nesse período surgiram muitos novos produtos, gerou-se uma necessidade de se diferenciar os produtos para chamar a atenção e serem vistos à distância.

Por causa disso, são fontes bem pesadas, possuindo serifas muito grossas e retangulares, as quais fazem um ângulo reto com a linha base. Na maioria das vezes, nesse tipo de desenho, a largura da serifa chega a ser a mesma das hastes. Apesar de chamarem muita atenção, essa categoria de fontes é imprópria para corpos menores.

fontes mecanicas

Curiosamente, esse estilo de fonte não é de origem egípcia. Na realidade, seu batismo secundário deu-se porque sua criação ocorreu concomitantemente à época em que Napoleão Bonaparte estava no Egito para uma campanha.

São características marcantes desse estilo tipográfico:

1. As serifas deixaram de ser acabamento caligráfico e virou ponto de atenção dos tipos;
2. Quase não apresenta contraste na espessura do traço;
3. E a altura é elevada.

fontes não serifadas

As primeiras letras sem serifa foram desenhadas por Willian Caslon IV por volta de 1816 (século XIX), mas devido ao contexto histórico em que estavam inseridas, as letras Não Serifadas perderam espaço para as fontes Mecânicas.

Foi somente durante a metade do século XX que as fontes Não Serifadas começaram a ser amplamente publicadas, apoiando a ideia da simplicidade e do funcionalismo, banindo todos os tipos de adereços possíveis.

Humanistas


fontes humanistas

As Sem Serifa humanistas demonstram o estado intermediário entre a geometria e o manual. Apesar de serem lineares, seus traços mais orgânicos e com menor definição dão a mesma dinâmica caligráfica vista em suas irmãs serifadas.

Como sugere o nome, esse estilo tipográfico também se baseia em características humanistas como o fato da terminação das letras nem sempre terem linhas com ângulos de 90º e terem o eixo vertical.

Essa classe se diferencia das anteriores pela modularidade das hastes que estruturalmente possuem desenhos mais arredondados e podem se encontrar com a linha base pode meio de suaves inclinações (em alguns casos o remate da letra “a” lembra o final de um texto escrito em pena).

As letras minúsculas possuem desenho em gancho e a letra “g” pode ser em gancho ou com dois andares. Letras desta classe são amplamente divulgadas hoje  e  influenciaram  os  novos  parâmetros estruturais no desenho de letras.

Geométricas


Como o próprio nome sugere, essa classe de fontes é totalmente inspirada em formas geométricas e racionalistas. Os tipos dessa classe usam círculos perfeitos, quadrados, triângulos e elipses calculadas, ângulos afiados e linhas retas como estrutura para os seus desenhos.
Não possuem legibilidade quando inseridas em blocos de textos extensos, porém são visualmente modernos e envolventes. 

fontes geometricas

A característica determinante desta classe, assim como de todas as famílias pertencentes à ordem das Não Serifadas, é a ausência de serifa. Contudo, podemos citar alguns aspectos particulares das fontes geométrica:

1. Possuem a letra A em formato de círculo;
2. Possuem a letra G minúsculo em formato de gancho;
3. São caracterizadas pela rigidez, impessoalidade e estrutura formal;
4. A monolinearidade dos traços das hastes é constante;
5. Tem uma altura X grande.

Transicionais


Assim como as suas irmãs serifadas, as fontes transicionais sem serifas levam esse nome porque compreendem um estilo estrutural criado durante a transição entre as classes Geométrica e Humanistas.

fontes transicionais

Podem ser chamadas também de “sem serifas anônimas” por causa da aparência menos expressiva de suas formas. Elas possuem traços mais retos e com poucas variações entre eles, fazendo com que seus desenhos sejam estruturalmente mais uniformes, assemelhando-se as transicionais serifadas.

Compreendem a classe de fontes mais usadas em todo o mundo, pois é básica e aplicável em diversas situações sem perder a legibilidade.

Nesse período algumas variações de estilos foram se desenvolvendo entre as fontes transicionais, possibilitando que esse grupo fosse fragmentado em dois novos subgrupos de acordo com as suas particularidades. São elas: as grotescas e neo grotescas.

fontes grotescas e neo grotescas

Grotescas



Foi a primeira variação específica que surgiu, datada do final do século XIX. A designação de “grotesca” é usada para caracterizar sua característica mais peculiar: traços pesados com algum contraste entre as espessuras das hastes.

Impulsionadas pelo mesmo movimento das fontes Modernas, a Revolução Industrial, as fontes grotescas apresentam espessuras que se aproximam das serifas quadradas.
Originalmente, algumas dessas fontes não possuíam letras minúsculas, nem variações como o itálico e devido as suas proporções, é mais adequada para títulos do que textos corridos.

Neo Grotescas


As fontes neo grotescas são versões mais suavizadas das grotescas que surgiram a partir da década de 50. São caracterizadas por possuírem contraste entre as hastes e terminações de forma oblíqua.

São tipos desenhados com boas formas estruturais de legibilidade e modulações bem planejadas e regulares, características que as aproximam das classes das geométricas, assim como o seu ”g” minúsculo que costumeiramente tem a cauda aberta.

Este tipo de letra costuma possuir, no lugar do itálico tradicional, uma versão inclinada do seu estilo romano e por serem mais suaves que sua “mãe” grotesca, são melhores para a produção de textos, embora seu uso nem sempre seja recomendável.

fontes decorativas e cursivas

Fantasia


São tipos diversos, com diversas inspirações, padrões e características que têm o objetivo de passar um forte impacto visual. São bem irregulares: enquanto algumas possuem boa legibilidade, outras possuem quase nenhuma. Normalmente funcionam melhor só em tamanhos grandes.

fonte fantasia

Góticas


As fontes góticas foram originadas entre os séculos XII e XIII a partir do fraturamento paulatino das formas manuscritas desenhadas pelos monges copistas da Idade Média. É um tipo com características dos manuscritos antigos que normalmente são mais densas e com baixa legibilidade.

fontes goticas

Históricas


São tipos inspirados nas escritas greco-romanas. Também possuem muitas irregularidades e pouca legibilidade.

fontes historicas

DingBats


Dingbats são fontes com figuras vetoriais, símbolos e caracteres especiais como japoneses e chineses que trazem pequenas imagens equivalentes às letras. Sua aplicação é bastante variada e constituem um recurso interessante se transformadas em brushes, shapes ou tubes. 

DingBats

Caligráficos


Surgem a partir de influências de formas rústicas, romanas, inglesas, e com o tempo a escrita caligráfica se tornou cada vez mais decorativa. Hoje em dia é utilizada em convites de cerimônias e eventos. Geralmente as caligráficas são aquelas fontes desenhadas e  não são geralmente padronizadas; há o uso de serifa; e seu traçado não varia muito a espessura, somente em alguns casos.

fontes caligraficas

Manuscritos


Surgem juntamente ao Renascentismo. Este tipo costuma mostrar escritas manuais informais, sem muita padronização. Destacaram-se nas décadas de 50 e 60, e hoje em dia parece estar voltando a uso. Costumeiramente, possuem uma legibilidade complicada e sua utilização deve ser feita com cautela.

fontes manuscritas



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